Missa

Como escrever sobre ontem? Foi tudo tão lindo, como no enterro.

Penso em Rilke e em Lispector, mais uma vez, e acho que nunca poderei descrever a noite de ontem. Com o primeiro entendi que a poesia comunica o incomunicável, usa imagens para se chegar a um território que a lógica não alcança: à expressão sutil do sentimento. Com a outra, aprendi que é possível fazer prosa como quem usa um anzol: usando a palavra como isca para pescar a não palavra.

Faz sete dias que mamãe morreu.

Essa foi a semana que redefiniu a minha história. A semana em que de fato cresci, em que virei adulta. Daqui para frente serei por mim.

Ontem, minha irmã publicou um texto de uma simplicidade poética e brutal no seu blog. Oscilo entre concordar com ela, com aquilo que temos ouvido nos últimos dias, contado por pessoas que estiveram com mamãe (que nesse tempo em que ela foi cuidada por nós, teria tido a tranqüilidade de saber que poderia partir em paz, sem mais preocupações porque já andamos com nossas pernas) e achar que ela estava totalmente enganada.

Ontem foi um dia de sim.

Fizemos mais uma despedida que fez jus à mamãe. Que ela merecia.

A Igreja, cheia como no enterro, presenciou momentos belíssimos, de ternura, emoção, leveza, saudade.

A flauta que acompanhava a voz lírica de minha amiga de infância, Juliana, nas canções bem escolhidas para a ocasião (algumas escolhidas pela própria mamãe por ocasião da missa de sétimo dia da tia Beth, há quatro meses), dava um toque volátil ao ambiente que quase me fazia sentir sua presença sobre nós.

Arrumei-me, como ela gostaria, com roupa escolhida de véspera, pois sairia cedo para aplicar prova de manhã e já ficaria pelos arredores para não precisar enfrentar o trânsito de Botafogo. Foi, inclusive, decisão bem tomada, pois depois soube que, ironicamente, por conta de manifestação de professores que bloquearam a Pinheiro Machado, deu nó na cidade.

Passei um batom escuro, que quase não uso, para tirar a palidez a boca, e corretor de olheiras. Não foi por vaidade, até porque se eu tivesse esse tipo de vaidade usaria mais maquiagem. Disfarcei a dor do rosto por achar que as pessoas deveriam focar em mamãe e não em nós: puxa, como os filhos estão sofrendo, coitados. Estando bem, mostrando-me bem, todos poderiam se ocupar da missão única de lhe render homenagens.

E mais uma vez surpreendeu. As pessoas amigas que vieram, e tantas que ressurgiram do passado, sentiam de fato a perda. Não estavam ali apenas para expressar apoio.

As leituras feitas por minhas tias, a presença firme e fofa de Henrique, meu filho, lendo com grande destreza para seus oito anos, as preces que escrevemos para mamãe, falando palavras que talvez nunca ouvira antes, em pé lá no altar, de frente para a multidão (que eu também vi, pois subi com ele, caso ele precisasse de mim, o que não ocorreu), encheu-me de orgulho. Depois, ele e o Vitor, meu sobrinho de onze anos, segurando as cestas para as ofertas e, descontraindo o ambiente, com trejeitos de corpo de quem está competindo para ver quem mais arrecadava dinheiro. Minha avó, firme, comungando. A fala do padre sobre mamãe, inserida em partes ao longo da missa, até mesmo na benção final. Os textos que meu irmão e minha tia escreveram e partilharam conosco, ao final. As palavras de minha tia, madrinha escolhida por mamãe para me batizar, e de minha cunhada, um pouco irmã. Os meus professores no Teresiano, colegas de mamãe. Os nossos colegas, professores da PUC. Os abraços sentidos de Tande, Sonia, Adriana, amigos tão queridos. A presença inesperada de Rosa. As presenças constantes de Gabi e Calla. O amor de Rodrigo, meu amigo irmão de vida inteira, e de sua mulher, Carol, pessoa de luz, com quem tenho amizade profunda embora convívio incipiente. Ela não sabe que é uma das minhas inspirações para enfrentar esses meus dias. Se ela, tão solar, tão alegre, tão vívida, também já perdeu a mãe é porque há um caminho.

Nenhuma dessas imagens quero esquecer. Porque elas me fazem sentir mamãe.

Por isso, eu tento escrever. Para gravar. Embora, eu saiba, por causa de Rilke e de Clarice, que ontem não ficará mesmo na história, porque a qualquer registro – escrito ou filmado – escaparia o acontecimento.

2 comentários sobre “Missa

  1. Querida Luísa, liguei há pouco para você para saber como você estava e para dizer da missa de ontem, de como me emocionou estar ali. Como você não respondeu, vim saber das notícias aqui. Você escreve tão bem, tão elegante e clara. Vocês estavam os próprios filhos de Maria Inez. Ela teria ficado orgulhosa. Para mim, que acredito, ela ficou muito orgulhosa dos filhos e dos netos.
    Adorei o texto “Massa”. Nem na dor você abandona a leveza. Parabéns pelo blog, querida.

  2. Sonia, querida, não vi o telefone tocar. Dei prova ontem e deixei o celular sem som… devo ter esquecido de reativar. Obrigada, amiga. Eu hoje viajo com as crianças, pois já tínhamos marcado de ir a Penedo com meu irmão. Mas na segunda-feira estou novamente aí.

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